Vinho & inovação · 4 min

O maior inimigo do vinho é sua própria narrativa

Formatos novos não ameaçam a tradição do vinho. Eles ocupam momentos que a garrafa nunca conseguiu alcançar.

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Resultados diferentes pedem atitudes diferentes. Parece óbvio quando lemos assim. Na prática, mudar é uma das coisas mais difíceis de fazer, especialmente quando aquilo que fazemos funcionou bem por muito tempo.

O Brasil ainda consome pouco vinho em comparação com a média global. Não porque falte qualidade ou oferta, mas porque o vinho nem sempre está onde o consumidor está.

Formatos como bag-in-box e lata não vieram substituir a garrafa. Vieram preencher espaços que ela nunca ocupou: o churrasco de domingo ou uma taça no fim de uma terça-feira comum. A garrafa continua sendo a escolha certa para celebrações e degustações. Só não precisa ser a única.

O café especial em cápsula não matou o café coado. Criou outro momento de consumo. O mesmo raciocínio vale aqui. Então por que tanta resistência?

A questão raramente é técnica. É simbólica. Existe uma narrativa construída ao longo de décadas de que a garrafa de vidro é o único recipiente legítimo para o vinho. Narrativas assim são difíceis de revisar porque já se tornaram códigos culturais.

O valor simbólico não está no recipiente, mas na coerência entre proposta, execução e contexto de uso. A Miolo manteve sua identidade clássica ao lançar o bag-in-box e expandiu o portfólio sem perder a essência. A Lovin’ Wine nasceu na lata, com linguagem jovem e descomplicada, aproximando pessoas que nunca se viram como consumidoras de vinho. Estratégias opostas, mesmo princípio: branding como ponte entre tradição e contemporaneidade.

A embalagem é a porta de entrada. O branding é o que faz o consumidor querer ficar. Ele aparece no visual, no tom de comunicação, nos canais e na relação que a marca constrói com as pessoas.

Como designer de marcas, vejo esse padrão em categorias diferentes. O produto quase nunca é o problema. A narrativa construída ao redor dele, às vezes, pode ser.

O seu mercado não sumiu. Talvez ele só esteja esperando um formato que você ainda não considerou. O que pesa mais no crescimento de uma marca: o que ela faz ou aquilo que acredita que pode fazer?

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